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segunda-feira, 28 de junho de 2010

0 A Fé não vacila entre a Esperança e o Medo – João Calvino


Ao afirmar isso, não é meu propósito aprovar a perniciosa filosofia ou fantasia que sustentam hoje alguns semipapistas. Ora, visto que não lhes é possível defender essa grosseira dúvida que tem sido ensinada nas escolas, ocultam-se em outra invencionice, de sorte a tornar a confiança mesclada com a incredulidade. Admitem que, enquanto temos nossos olhos postos em Cristo, encontramos nele motivo suficiente para esperar; porque, não obstante, sendo nós sempre indignos de todas essas benesses que em Cristo se nos oferecem, querem que flutuemos e vacilemos à vista de nossa indignidade. Em suma, de tal modo colocam a consciência entre a esperança e o medo, que este oscila para cá e para lá, mediante intermitências e vacilações.

Aliás, a esperança e o medo de tal modo relacionam-se entre si que, em despontando aquela, este é reprimido; em ressurgindo este, aquela de novo tomba por terra. E assim Satanás, quando já vê que agora nada valem aquelas abertas maquinações com que costumara anteriormente enfraquecer a certeza da fé, tenta miná-la através de artifícios indiretos.

De que natureza, porém, será essa confiança que, freqüentemente, cederá ao desespero? Se contemplas a Cristo, dizem eles, infalível te é a salvação; se te volves a ti mesmo, infalível é a condenação. Logo, necessário se faz que alternadamente reine em teu espírito a desconfiança e a boa esperança. Como se, de fato, devêssemos pensar de Cristo como estando distante e não antes a habitar em nós! Ora, uma vez que dele aguardamos a salvação, não porque nos pareça distante, mas porque a nós, enxertados em seu corpo, não só nos faz participantes de todos os seus benefícios, mas também de si próprio. Conseqüentemente, assim lhes reverto este argumento: Se a ti mesmo contemplas, certa é a condenação; mas, uma vez que Cristo de tal modo te comunicou todos os seus benefícios, que todas as suas coisas são tuas, que te faz membro de seu corpo e, melhor, um com ele, sua justiça cobre teus pecados, sua salvação abole tua condenação. Ele próprio, com sua dignidade, se interpõe para que tua indignidade não se exiba à vista de Deus.

E isso é tão certo que de modo algum devemos apartar Cristo de nós, nem nós dele, mas manter solidamente esta comunhão pela qual intimamente nos uniu a si. Desta forma nos ensina o Apóstolo: “O corpo, na verdade, está morto por causa do pecado, mas o Espírito de Cristo, que habita em vós, é vida por causa da justiça” [Rm 8.10]. Segundo a trivialidade desses semipapistas, o Apóstolo deveria dizer: “Cristo, na verdade, tem vida em si, mas vós, visto que sois pecadores, permaneceis sujeitos à morte e à condenação.” Mas realmente ele fala de maneira bem outra, pois ensina que esta condenação que em nós mesmos merecemos foi tragada pela salvação de Cristo; e, para confirmar isto, usa daquela razão que referi: que Cristo não está fora de nós, mas habita em nós; não só se nos apega por um laço indiviso de associação, mas, mediante certa comunhão maravilhosa, dia a dia, mais e mais se une em um só corpo conosco, até que se faça conosco inteiramente um.

Entretanto, tampouco renego o que disse pouco antes, ou, seja, que amiúde ocorrem certas interrupções da fé segundo sua fraqueza, quando ela oscila para cá ou para lá por entre violentos ataques. Assim, no denso nevoeiro das tentações, a luz lhe é sufocada. Entretanto, não importa o que aconteça, ela nunca deixa de inclinar-se  sempre para Deus.

A BIPOLARIDADE DA FÉ NA PALAVRA DE BERNARDO DE CLAREVAL

Nem de outra maneira discorre Bernardo quando, na quinta homília quanto à Dedicação do Templo, trata expressamente desta matéria: “Refletindo, digo-o, de quando em quando, pela benevolência de Deus, acerca de minha alma, parece-me que nela descubro como que, por assim dizer, dois aspectos contrários. Se a contemplo segundo é ela em si e de si, nada mais verdadeiro posso dizer dela, senão que se reduz a nada. Por que se faria necessário agora enumerar-lhe as misérias, uma a uma, quão saturada está de pecados, mergulhada em trevas, enredilhada em engodos, fervilhante de concupiscências, sujeita a paixões, repleta de ilusões, propensa sempre ao mal, inclinada a todo vício, por fim plena de ignomínia e confusão? Se de fato até mesmo todos nossos próprios atos de justiça, examinados à luz da verdade, são achados como se fossem trapos imundos [Is 64.6], então o que nos haverão de reputar nossos atos de injustiça? Se a luz que há em nós são trevas, quão grandes serão as próprias trevas! [Mt 6.23]. Que diremos, pois? Sem dúvida, o homem se tornou semelhante à fatuidade [Sl 144.4]; ele foi reduzido a nada; o homem é nada.

Ora, como pode ser absolutamente nada aquele a quem Deus engrandece? Como pode ser nada aquele em favor de quem o coração divino inclinou? Cobremos alento, irmãos. Mesmo que nada somos em nosso coração, talvez algo de nós pode jazer escondido no coração de Deus, ó Pai das misericórdias, ó Pai dos miseráveis, quando para nós inclinas teu coração? Ora, teu coração está onde está teu tesouro [Mt 6.21]. Como, porém, somos teu tesouro, se nada somos? Todas as pessoas são assim diante de ti como se nada fossem; ele as considera como menos que nada [Is 40.17].

De fato, diante de ti, não dentro de ti; assim no juízo de tua verdade, não, porém, assim na inclinação da tua piedade. De fato, chamas as coisas que não são como se fossem [Rm 4.17]; portanto, não são, porque chamas as coisas que não são, e todavia são, porque as chamas. Ora, quanto a si, ainda que não sejam, em ti, contudo, são, de par com essa palavra de Paulo: ‘Não de obras de justiça, mas por aquele que chama’” [Rm 9.11].

Depois de haver falado Bernardo nestes termos, mostra ser admirável a relação que existe entre estas duas considerações: “Indubitavelmente, as coisas que são conexas entre si, não se destroem mutuamente.” Além disso, na conclusão declara mais ostensivamente, nestas palavras: “Agora, se em uma e outra destas considerações diligentemente examinarmos o que somos, com efeito em uma quão nada somos, na outra quão magnificados somos, creio que nossa glória se mostra moderada, mas talvez é até mais incrementada, por certo mais solidificada, visto que nos gloriemos não em nós, mas no Senhor [2Co 10.17]. Realmente, assim pensamos: se Deus decretou salvar-nos, seremos de pronto libertados: já nesse fato se pode cobrar alento. Mas, ascendendo a um posto de observação mais elevado, busquemos a cidade de Deus, busquemos-lhe o templo; busquemos-lhe a morada; busquemos-lhe a esposa. Não esqueci um pelo outro; digo-o, porém, com temor e reverência: ‘Nós o somos, afirmo, mas no coração de Deus; nós o somos, mas por dignificação dele, não por dignidade nossa.’”

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